segunda-feira, 5 de março de 2018

O conto do vazio


Caros leitores, o tema e hoje é bastante distante do padrão.
Era uma vez um rapaz que decidiu voltar para casa. Uma outra personagem (uma moça) foi contratada para desempenhar uma função de pedagoga em um projeto social de responsabilidade de uma empresa terceirizada pela prefeitura da cidade em que moravam.
A tal personagem estava insatisfeita com a proposta que recebeu para a realização do serviço, mas decidiu que se o rapaz a ajudasse, ambos poderiam realizar tarefa relativamente árdua.
Vide, meus leitores (se é que vocês ainda existem), a contratante desejava um planejamento pedagógico para crianças, dentro de um espaço cedido pela prefeitura, onde é possível encontrar diversas atividades, todas parte do projeto social.
A princípio, tudo parecia lindo. Haveria uma sala próxima à entrada, bastante visível e de fácil acesso, os protagonistas desse conto ensinariam cidadania, sociedade e convívio para essas crianças, poderiam tratar de regras de convivência, ética e coisas que afetariam a vida dessas crianças, que são bastante carentes.
Logo no primeiro dia foi possível observar a falácia que esta ideia era. Não havia controle, as crianças eram rotativas, sem presença obrigatória (o que não é necessariamente ruim) e os horários ou competiam com atividades mais atraentes, ou deixavam óbvia a real intenção da contratação: a necessidade de babá para que as mães pudessem realizar outras atividades no espaço em questão.
Vejam bem, contrata-se uma babá diplomada, que ocupe crianças rotativas e ainda por cima deixe, para a prefeitura, uma noção de que está sendo realizado um trabalho decente.
Em segundo momento, o espaço para as atividades pedagógicas foi reduzido para ¼ do volume total, e o diferencial foi entregue para “aulas de alguma coisa referente a estética e salão de beleza”, com a proposta de permanecer próxima a entrada e ficar responsável pela segurança dos equipamentos (a sala era compartilhada) ou mudar-se para uma sala mais distante, com alta insolação e pouco visível a qualquer um que esteja dentro do espaço do projeto.
O rapaz decidiu comentar sobre as intenções que ele observara, e quase foi penalizado. Mesmo assim, preocupada que seus planos estivessem tão óbvios, a responsável pela contratação decidiu estabelecer lista de presença e obrigatória para a pedagoga e para as crianças que talvez viessem a participar, o que já era padrão para, literalmente, todas as outras atividades existentes no recinto.
A despeito da bagunça, a despeito das intenções reais dos contratantes, a despeito de todas as condições, tanto o rapaz quanto a moça que o convidou a ajudá-la resolveram ajudar e ensinar o máximo que pudessem àquelas crianças sortidas.
Os problemas não haviam acabado, reduziu-se um dia de atividades, obrigando a contração do planejamento já acertado, por vezes, os titereiros decidiram atropelar tal planejamento e impor outras atividades, e por fim, cortaram um terço da carga horária, para estender o projeto sem variar os recursos.
Muitas das crianças necessitam do apoio e suporte oferecido pelos protagonistas, tanto que alguns abandonaram a posição de rotativos e tornaram-se permanente, preferindo aprender à brincar, jogar futebol ou vôlei, andar de skate ou fazer esportes de luta, como capoeira e judô.
Mas qual seria o segredo que fez com que crianças optassem pelo inusitado? A maior parte dos frequentadores são crianças carentes, não só financeiramente, mas de atenção também. Um apoio, um abraço, uma atenção ao que dizem é muito importante para elas, e infelizmente, os protagonistas puderam observar quão pouco disso os pequenos recebem. Muitos estão em anos escolares mais avançados, sem saber ler ou escrever, espelhando as letras, outros tem pais separados e são revoltados com essa situação. O mais observado o quanto essas crianças estão sendo educadas pelas RUAS, e não pelos pais.
Rapaz e moça decidiram fazer aquilo que foram contratados para fazer a despeito daquilo não ser mais que um chamariz.
Mas esse conto mal começou...
A lição tirada desta história parece ser a do esforço do rapaz e da moça (a outra personagem), superando as adversidades para ajudar as crianças...
... Mas não.
A lição real por trás desse conto é como algumas pessoas vivem de aparência, ocos de conteúdo e esforçando-se ao máximo para manter a polidez da casca.
A empresa estava mais interessada em pintar esterco de dourado para exibir como se fosse ouro para a prefeitura do que realmente realizar sua função, realizar o trabalho social que foi contratada e paga para fazer.
Esse é um conto político que reflete bem o povo na cidade em que se passa, vazio de conteúdo (em todos os aspectos), vivendo da falsa aparência e das mentiras que contam sobre si. Um povo esnobe e que julga de imediato, tão hipócrita quanto é possível ser.
Agradeço se você leu, mais “indiretas” dessas estão por vir, ainda mais se considerarmos que esse é um ano de eleição e ainda tem muita gente chamando mula de mito, e se iludindo com discurso de ódio.
Obrigado pela atenção,
Corvo.

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